quinta-feira, 10 de abril de 2008

ACCORDO ORTOGRÁPHICO


Sara Pinto da Silva, no seu blogue Contemplações do Acaso, considera negativa a adoção do novo acordo ortográfico (ver o post aqui) que, ao que tudo indica, entrará em breve em vigor.

Para aqueles que não estão atentos, este acordo altera a grafia de cerca de 1,6% das palavras da língua portuguesa falada em Portugal, PALOP e Timor-Leste. Na grafia brasileira haverá menos alterações (0,5%), mas finalmente, e depois de quase 200 anos, todos os países de língua oficial portuguesa terão grafias similares, sobrando algumas exceções onde existirá dupla grafia (tal como acontece em poucas palavras do inglês britânico, americano, australiano, etc.)

A língua é viva. Evolui. E como tal a evolução escrita é também necessária. Se tal não acontecesse hoje falaríamos português, mas escreveríamos em latim. D. Dinis fez o primeiro e mais importante acordo ortográfico de sempre, ao definir o português como língua oficial do reino.

É claro que me será difícil aceitar palavras como "ator", "atriz", "ação" ou "ótimo", mas no geral, a abolição das consoantes mudas é compreensível. Também terá sido difícil à maioria das pessoas em 1911 habituar-se a não escrever "pharmácia", "commércio", "caravella", "prompto", "diccionário", "lyrio", "telephone", "cryptographico", "physica" ou "apparelho", mas hoje parece-nos ridícula a sua utilização.

Dizia Alexandre Fontes a respeito da revisão ortográfica de 1911:

"Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase. Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto (...) Affligimo-nos extraordinàriamente, quando pensamos que haveríamos de ser obrigados a escrever assim!"

Quanto aos exemplos apresentados por SPS, tenho a refererir que "úmido", será aceite, tal e qual como "húmido" (forma mais usada em Portugal, e que não deixará de estar correta). Já o hífen não é abolido... Guarda-chuva continuará a ser escrito da mesma forma. O mesmo não se pode dizer das palavras compostas cujo prefixo acabe em vogal e que a segunda palavra comece por r ou s. Nestes casos temos "antissemita" e "antirreligioso", mas nunca arquiinimigo ou préhistória.

Se "ato" (do verbo atar) e "ato" (resultado de uma ação) se passarem a escrever de maneira igual, não vislumbro qualquer inconveniente. Eram homófonas, passaram a homónimas, tal como "canto" (da casa) e "canto" (dos pássaros) ou "vão" (de escada) ou "vão" (do verbo ir).

Se se pronuncia o p em "recepção", então usa-se o p. Eu por acaso não pronuncio. Passarei a escrever "receção". Já "amígdala", "ceptro", "secção", "amnistia" ou "subtil" continuarão na sua forma, já que a consoante é sempre lida. Contudo, caso eu fosse um falante de português que não as lesse (como os há e muitos no Brasil) então escreveria "amídala", "cetro", "seção", "anistia" e "sutil".

Parece estranho, mas é mesmo assim. Em inglês também podemos optar (e ora aqui está mais um exemplo de uma que não muda) por "color" ou "colour", "mom" ou "mum", "center" ou "centre" ou "organization" e "organisation".

E já agora, será que a existência de culturas e hábitos diferentes em todos os 8 países de língua portuguesa se deixará afetar por uma normalização na escrita? Parece-me um exagero. Brasileiros, alentejanos, açorianos e são-tomenses continuarão a usar e abusar do gerúndio; tal como portugueses, brasileiros e angolanos continuarão a utilizar "autocarro", "ônibus" e "machimbombo". A língua continua rica. Continuaremos com a "bica" e o "cimbalino", a "imperial" e o "fino", a "boleia" e a "carona", o "duche" e a "ducha", "amendoim" e "jinguba", "bairro de lata", "favela" e "musseque".

Atualmente o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de 50 milhões de pessoas que tem mais de uma ortografia oficial. Estas duas grafias prejudicam a coesão de uma língua que a cada ano que passa ganha maior projeção mundial, muito graças à eminente transformação do Brasil em potência. As variantes estão há anos a evoluir de forma independente, separam-se a pouco e pouco, e em menos de um século volvido teremos duas línguas diferentes. Será que Portugal não beneficiará de uma coesão linguística com o Brasil? Novos termos surgem todos os dias, relativos às mais diversas áreas da sociedade, e com maior preponderância na tecnologia e na ciência, áreas vitais para o século XXI. O Acordo prevê uma cooperação entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa, visando uma normalização de novos termos. Não será isso benéfico para todos?

Também beneficiada sai a difusão do português nos PALOP e Timor. Com o acordo ortográfico em vigor, e com a existência de uma única grafia, a distribuição de livros e de material didático nos outros 6 países de língua portuguesa fica facilitada, assim como será mais fácil a implementação de programas de formação de professores de português nestes países (e também no estrangeiro, já que o português é das línguas mais ensidadas como segunda língua em todo o globo).

Contudo, estou de acordo que esta normalização não servirá para "projetar a língua portuguesa no mundo", nem que vá beneficiar grandemente a circulação de livros e publicações entre os vários países. Diria mais, até poderá prejudicar as editoras portuguesas que se verão ameaçadas pelo poderio das fortes editoras brasileiras, que controlam um mercado de 350 milhões de falantes, e assim veem as suas portas abertas ao mercado luso-africano.

Mesmo assim Saramago continuará a ter bestsellers no Brasil, e Paulo Coelho continuará a vender milhões de livros em Portugal. Seja isso bom ou mau.

Venha daí esse acordo!

PS - O que muda para além disto? Os nomes dos meses, das estações do ano e dos pontos cardeais passam a ser escritos com minúscula, como já se faz no Brasil, e sempre se fez nas línguas latinas: janeiro, julho, primavera, norte, sudoeste. Desaparece o acento nos ditongos "ói", ficando "heroico", "joia", boia" ou "comboio". Desaparecem os acentos circunflexos em deem, veem. Desaparecem o acentos em "pára", "pêlo", "pêra" e "pólo", ficando "para", "pelo", "pera" e "polo". E o k, o y e o w reentram no alfabeto, por forma a introduzir vocábulos maioritariamente de origem africana muito usados nos PALOP.

1 comentário:

SPS disse...

agrada-me a mudança no post porque acho que me estavas a atacar só por não concordares comigo. É apenas a minha opinião. Acho que a motivação não é a correcta. De qualquer forma guarda-chuva passa a ser guardachuva e posso mostrar-te o artigo onde vi isso. Antes de dizeres que estou errada podes pesquisar mais para ter a certeza.
Em todo o caso está um bo post mas não esperes que vá discutir isto pessoalmente que sabes bem que me exalto co facilidade e não vamos causar mau ambiente entre nós por accordos ortographicos.